Inovação em Valuation: o que é Fato e o que é Bullshit

No mundo das rápidas mudanças introduzidas por avanços tecnológicos, a atividade de se definir o valor de uma empresa não poderia passar ilesa.

Mas antes de discutir inovação em valuation, vamos refletir sobre 2 conceitos:

1.      Qual o valor de um ativo financeiro, qualquer ativo financeiro?

2.      Metodologia e execução são 2 coisas diferentes.

O valor de um ativo financeiro (e aqui vale reforçar que valor e preço são coisas diferentes) é função do fluxo de caixa futuro que esse ativo vai proporcionar ao seu dono, trazido a valor presente usando-se uma taxa de desconto que reflita o retorno esperado para que um investidor mantenha a posse desse ativo.

Esse conceito se aplica a um bond/debenture, a títulos de renda fixa (marcação a mercado) e a uma empresa, neste caso o fluxo de caixa descontado (FCD).

Metodologias pouco usadas pelo mainstream tal como o Customer-Based-Corporate-Valuation, que parte da definição do valor do cliente para determinar o valor da empresa, também utiliza o conceito de trazer fluxos futuros a valor presente.

Com relação a metodologia versus execução, precisa explicar a diferença?

Sim o FCD é a metodologia mais correta para se determinar o valor intrínseco de uma empresa; mas sua execução é complexa e seu mal uso pode levar a erros de análise significativos.

Portanto, é na execução do valuation onde veremos o uso de novas técnicas de determinação de premissas que usam inteligência artificial, machine learning, big data, simulações em larga escala.

Mas será que teremos uma metodologia nova para valuation?

Não acredito em metodologia nova, mas acredito sim em um avanço na análise de aspectos estratégicos da empresa que permita que o uso do FCD seja mais efetivo, não apenas para determinar valor, mas também para gerar insights para a empresa ser capaz de aumentar sua criação de valor para investidores e demais stakeholders.

Nesse sentido, gostaria de introduzir aqui uma premissa pouca discutida do FCD:

A metodologia assume que os recursos não distribuídos para seus acionistas serão investidores em projetos cujos retornos serão maiores que o custo de capital ponderado da empresa.

Em outras palavras: os recursos reinvestidos criarão valor.

Mas como podemos mitigar a probabilidade de que essa premissa não seja verdadeira?

Tenho 2 sugestões:

1. Analisar os investimentos em ativos intangíveis. Essa análise deve incluir: a) como a empresa está estruturada para lidar com seus ativos intangíveis, b) quanto a empresa investe e como esse valor se compara com investimentos em ativos fixos, c) como os investimentos em intangíveis são alocados, d) como a empresa mede o retorno sobre investimentos em intangíveis etc. Lembrando que quando falamos em ativos intangíveis, estamos falando em: brand equity, Pesquisa & Desenvolvimento, patentes, cultura organizacional, carteira de clientes etc.

2. Compromisso de criar valor não só para acionistas, mas também para seus demais stakeholders. Estudos mostram que ao longo do tempo, existe uma correlação entre valor criado para acionistas com a capacidade de criar valor para seus demais stakeholders. Me parece claro que se uma empresa consegue deixar satisfeitos seus clientes, fornecedores, funcionários, sua comunidade etc. ela conseguirá prosperar ao longo do tempo. Neste caso é importante que a empresa defina métricas claros de criação de valor para cada grupo de stakeholders e que se comunique com transparência o desempenho deste processo para todos os interessados, não apenas para um grupo específico.

A comunicação frequente do desempenho da empresa em criar valor para seus stakeholders traz também um outro benefício:

Ele reduz o risco de reputação uma vez que torna o processo de aplicação de políticas ESG mais tangível, dificultando excessos com práticas dos diferentes tipos de washing e do abuso no uso de virtue signalling.

Gostaria de concluir esse artigo deixando as 3 áreas onde devemos concentrar tempo e foco quando estivermos dedicados a determinar o valor econômico/intrínseco de qualquer empresa, independentemente de setor, estágio de vida etc.:

1.      Estratégia Corporativa;

2.      Qualidade dos investimentos em INTANGÍVEIS e,

3.      Criação de valor não só para acionistas, mas também para seus demais stakeholders.

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